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Depois de um dia mau pode haver um céu estrelado. O meu reino.


17
Jun08

Eu e os meus muitos bebés

por Princesa das estrelas
a minha crónica da Pais & Filhos de Dezembro. tinha prometido colocá-las a todas aqui e esqueci-me....


Se esta frase fosse verdadeira, eu teria vários filhos, parte importante dos meus planos de vida em família. Não é que me visse rodeada de cinco ou seis crianças, mas sempre pensei que o Henrique seria o primeiro de dois ou três. O que acabou por não acontecer.
A minha ansiedade/angústia por não poder ter mais filhos é cíclica. Deixou de ser uma obsessão mas, em determinados momentos, dou por mim a pensar que não voltarei a ter a mão sobre a barriga para sentir um bebé mexer.
Há poucas semanas uns amigos devolveram-me roupinhas de bebé do Henrique que eu lhes tinha emprestado para o seu Tiago, agora um valente bebé de seis meses. E ali, a olhar para todos os mimos (e foram muitos) que comprei para o meu primeiro bebé, fiquei triste, a pensar o óbvio: que não teria outro filho a usar aquelas delícias.
Enquanto estava grávida do Henrique fui ao Brasil e, devo confessar, que não me contive: fartei-me de comprar roupa de bebé, pequenas meias, sapatinhos, calções de banho, t-shirts, calções… um sem fim de pequeníssimas peças de roupa que todos os meus filhos usariam.
Quando o Henrique tinha oito meses e me foi diagnosticado cancro, uma das minhas principais preocupações não era a minha morte, tal era o meu grau de inconsciência. O que eu queria assegurar era que, se tivesse de fazer quimioterapia e radioterapia, as mesmas não me impedissem de voltar a ser mãe. Ou seja, eu pensava que a gravidez em si não seria um risco; o máximo que me poderia acontecer era não conseguir engravidar devido aos tratamentos. E arrastei para esta insanidade momentânea a minha querida ginecologista, a quem me lembro de ter telefonado várias vezes a pedir conselhos. Isto antes de saber tudo sobre a minha doença e a sua gravidade. E ela, a minha Alice (é assim que a trato), certamente ciente de todos os riscos que eu corria e da mais que certa impossibilidade de eu voltar a ser mãe, nunca deixou de me atender o telefone, de me dar os contactos dos seus colegas da Infertilidade. E acabei por desistir da ideia de “congelar” óvulos mais pela sua inviabilidade que pela minha noção do que se estava e estaria a passar.
O meu primeiro contacto com essa dura realidade teve lugar numa das minhas primeiras consultas de Oncologia. O médico, que em termos de simpatia e relações humanas deixava muito a desejar, olhou para mim como um burro para um palácio quando lhe perguntei se poderia voltar a ter filhos. “Concentre-se em continuar viva. Quer dois filhos para quê? Para não estar cá para os criar?” Aquelas palavras deixaram-me estupefacta. Hoje percebo-as de outra forma, entendo até o que aquele médico me queria transmitir. Mas naquela altura, em que eu estava tão vulnerável, depois de uma operação tão violenta e sem saber que mais tratamentos se seguiriam, tudo me pareceu de uma frieza brutal.
Tecnicamente posso engravidar. A quimioterapia não me deixou estéril. Mas aqui a técnica só pode ficar no plano das hipóteses e suposições. A verdade é que há um risco grande de voltar a ficar doente se engravidar. Não tenho dados estatísticos, mas sei que esse risco existe e é real. E cabe-me a mim decidir se vale a pena o risco.
Eu adoraria voltar a estar grávida. Foi uma das melhores fases da minha vida. Sentir a barriga crescer, sentir o Henrique mexer, foi mesmo fantástico e único. Mas percebo o que aquele médico queria dizer. Eu não estou livre de voltar a ficar doente, com uma gravidez esse risco aumenta consideravelmente, porque tudo cresce no nosso organismo, tudo se altera. E será que vale a pena arriscar ter outro filho? Para já penso que não.
São várias as pessoas que me falam de adopção. Que tirar uma criança de uma instituição é algo de nobre e, que se tenho tanto amor para dar, posso perfeitamente adoptar uma criança. Também é verdade. Mas parte do risco mantem-se. Tento explicar que, primeiro, eu gostaria muito da experiência física da maternidade, de estar grávida. Segundo, o risco de ficar doente mesmo não voltando a engravidar ainda é real e não é assim tão longínquo como eu gostaria. Por isso, adoptar uma criança, retirá-la de uma instituição, de um ambiente e de um passado difíceis para a colocar perante uma hipótese de orfandade, é algo que me atormenta. Claro que todos nós corremos o risco de morrer, mas quer queira quer não, uns correm mais riscos que outros.
Mas, felizmente, a minha vida é preenchida com outras crianças. As das minhas amigas, aquelas pessoas especiais que nunca me deixaram enquanto estive doente. E, pelas últimas notícias, mais bebés se vêm juntar a minha lista de preferidos. Vejamos, o Martim nasce em Dezembro, a Madalena em Fevereiro (se for mesmo uma querida escolhe o dia do meu aniversário para visitar este mundo), e mais quatro chegarão até ao Verão. Alguns deles ainda sem nome, outros até desconheço o sexo.
E aqui me vejo, rodeada das roupas de bebé do Henrique, a separar por montinhos para poder emprestar a todos, cheia de vontade de tricotar mantinhas e bordar fraldas. E sinto-me mais preenchida e feliz. Já que não posso ser mãe. Serei uma grande tia! Dos meus outros bebés.

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