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Depois de um dia mau pode haver um céu estrelado. O meu reino.

25
Set14

Submersa

por Inês P Queiroz

é como me sinto... assim a tentar manter a cabeça fora de água. Mas a custo. Estou numa daquelas fases em que nem sei para onde me virar, o que fazer primeiro, o que gerir com prioridade.

Isto não anda fácil, por estas bandas. Por isso não estranhem, se houver uma ausência por estes lados, ou se o humor for corrosivo.

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25
Jun14

A vida atropela-nos

por Inês P Queiroz

Há dias em que é o que sinto: que a vida está constantemente a atropelar-me e não resta tempo para quase nada que não seja levantar-me e desviar-me dela.

A partir de amanhã temos a visita da avó Ida (durante duas semanas); no sábado ficamos sem o pai que vai viajar em trabalho; no domingo tenho um batizado, ou melhor, um tribatizado e sou madrinha de uma das princesas e ainda me falta decidir o que vestir (o tempo não ajuda) e comprar as prendas (ou parte delas); amanhã não tenho empregada a partir do meio da tarde, o que complica tudo por causa dos miúdos; na quinta tenho de ir para São João das Lampas à reunião com o padre... 

E no meio disto tudo há o trabalho (130 páginas para ler e anotar até sexta - além do expediente, claro) e o Mundial.

Há dias em que sinto que a vida me atropela. Hoje foi um desses dias.

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08
Mar11

6 anos

por Inês P Queiroz
O dia 8 de Março não é, para mim, um dia qualquer. E nem sequer é o Dia Internacional da Mulher. Pelo menos desde 2005. Desde o dia 8 de Março de 2005 que este passou a ser o DIA D. Foi nesse dia que fui operada ao tumor que tinha no estômago. Foi esse o dia mais longo da vida dos meus pais, e do meu irmão, e do meu marido. E é desde essa data que, clinicamente, se conta a minha sobrevida. Como se tivesse renascido depois daquela operação. O conta quilómetros voltou ao zero.

Hoje de manhã, logo pela fresca, liguei à minha mãe, que não está em Lisboa, para lhe dar um beijo e agradecer por tudo o que tem feito por mim nestes últimos 6 anos. «Já que não posso agradecer também ao pai, agradeço-te a ti.» E ouvi-a chorar. E chorei com ela. De alegria, porque estou cá contra todas as expectativas, de saudades, porque, entretanto, o meu pai morreu.

E não deixa de ser engraçada a forma como vou sabendo mais coisas sobre esse dia. A minha mãe disse que a operação durou 8 horas e que ela e o meu irmão se dirigiram ao médico no fim para tentar saber como tinha corrido. Ele, que tinha cara de poucos amigos, mas que era a pessoa mais fantástica do mundo, agarrou na mão da minha mãe e disse qualquer coisa deste género: «a senhora é crente? Então peça a Deus. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance, limpei tudo o que podia. Peça para que ela seja uma das que ficam bem.» E ele fez bem, muito bem. Porque eu continuo cá e, ironia das ironias, ele também morreu entretato.

Dito isto, hoje quero é celebrar. Comer umas belas lapas grelhadas, regadas com um belo branco, comer bolo do caco com manteiga de alho... e dar muitos beijos aos meus homens.
Celebrar os meus seis anos!

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02
Jun10

Para gravar

por Inês P Queiroz
Hoje, ao regressar a casa depois de me ter esquecido do telemóvel, ouvi do meu marido: "O Henrique disse que a mãe anda sempre a correr e está sempre cheia de pressa". E estou, até agora, com esta frase gravada na cabeça. Há uns anos atrás, depois de ter ficado doente, jurei a mim mesma que a vida que me restasse (fossem 5 meses ou 50 anos) seria para saborear. Que havia certas coisas que não me podia permitir, que havia caminhos pelos quais não queria enveredar. O tempo passou e essas certezas um dia tão claras foram ficando esquecidas. Há alguns meses, e depois da roda viva que tem sido a minha vida profissional, voltei a pensar no assunto; fui à minha caixa das memórias gravadas e puxei delas, trouxe-as para a superficie, voltei a escrever quais eram as minhas prioridades nesta vida e de que forma elas estavam a ficar esquecidas.
Esta manhã, depois de ouvir o que o meu filho disse, percebi que tenho de voltar ao caminho certo. E não me posso desviar

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23
Jun09

Reeducar o bicho

por Inês P Queiroz
Já fiz a revisão! Não a dos 70 mil quilómetros, mas a dos 4 anos. E passei. Análises, ecografia, conversa com o médico e ... está tudo bem. Agora entro numa nova fase: a da preparação para os cinco anos. Da próxima vez que for ao hospital (em Dezembro) será para uma conversa com o médico e para marcar uma bateria de exames para Março de 2010, altura em que ultrapassarei a mítica barreira dos cinco anos. E iniciei também uma nova etapa da minha compreensão e vivência das minhas limitações. Ultimamente tenho tido algumas queixas. Andei até preocupada, com medo de ter algum problema. Mas, ao que parece, o meu problema é comer demasiado. Nunca pensei poder voltar a dizer isto, mas a verdade verdadinha é que como como muito e não o posso fazer. Porque as consequências são desagradáveis. Reeducação alimentar, é o próximo passo. Não deixa de ter graça eu que depois da operação, há quatro anos, não conseguia comer mais de três colheres de cerelac, agora como demais:)
Podia ser pior, podia ser pior

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19
Jun08

Novas de um lutador

por Inês P Queiroz
As novidades nem são muitas, mas ele é mesmo um lutador.
O meu pai continua nos cuidados intensivos e sob o efeito de sedação. Dizem os médicos que é o procedimento normal numa situação como esta, tão delicada. Tê-lo a dormir é apenas uma forma de assegurar que não tem dores e que não se mexe o que, segundo eles, poderia estragar tudo.
Imagino a minha mãe, todo o dia naquele quarto de hospital, sozinha, a esperar pelas duas visitas permitidas, momentos em que o contempla em silêncio e sem qualquer reacção da parte dele.
Não sei quanto mais tempo ele irá permanecer a dormir. Estou longe, não posso correr atrás de um médico pelo corredor a implorar novidades... e ela, coitada, mal consegue entender o que lhe dizem.
Mas estamos com fé. Ele continua estável e a lutar!

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19
Jun08

Novas de um lutador

por Inês P Queiroz
As novidades nem são muitas, mas ele é mesmo um lutador.
O meu pai continua nos cuidados intensivos e sob o efeito de sedação. Dizem os médicos que é o procedimento normal numa situação como esta, tão delicada. Tê-lo a dormir é apenas uma forma de assegurar que não tem dores e que não se mexe o que, segundo eles, poderia estragar tudo.
Imagino a minha mãe, todo o dia naquele quarto de hospital, sozinha, a esperar pelas duas visitas permitidas, momentos em que o contempla em silêncio e sem qualquer reacção da parte dele.
Não sei quanto mais tempo ele irá permanecer a dormir. Estou longe, não posso correr atrás de um médico pelo corredor a implorar novidades... e ela, coitada, mal consegue entender o que lhe dizem.
Mas estamos com fé. Ele continua estável e a lutar!

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18
Jan08

começo e fim

por Inês P Queiroz
Muitas vezes o começo e o fim andam mais próximos do que pensamos. A vida e a morte tocam-se das formas mais estranhas e constrangedoras, até. Ou, sem pensar numa experiência tão limite, a doença e uma nova vida. Podem acompanhar-nos quase de mãos dadas uma com a outra causando em nós sentimentos contraditórios. Por um lado a felicidade de presenciarmos uma vida que começa (de fazermos parte dela), por outro a tristeza de vermos alguém que amamos sofrer.
Como se a vinda de uma nova vida, justificasse a dor provocada por a perda ou a ameaça a outra.
Por estes dias tenho pensado muito em dois amigos e no que eles devem estar a passar.
Deixo aqui ficar um beijo para os dois.

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18
Jan08

começo e fim

por Inês P Queiroz
Muitas vezes o começo e o fim andam mais próximos do que pensamos. A vida e a morte tocam-se das formas mais estranhas e constrangedoras, até. Ou, sem pensar numa experiência tão limite, a doença e uma nova vida. Podem acompanhar-nos quase de mãos dadas uma com a outra causando em nós sentimentos contraditórios. Por um lado a felicidade de presenciarmos uma vida que começa (de fazermos parte dela), por outro a tristeza de vermos alguém que amamos sofrer.
Como se a vinda de uma nova vida, justificasse a dor provocada por a perda ou a ameaça a outra.
Por estes dias tenho pensado muito em dois amigos e no que eles devem estar a passar.
Deixo aqui ficar um beijo para os dois.

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22
Jun07

A dignidade

por Inês P Queiroz
O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

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22
Jun07

A dignidade

por Inês P Queiroz
O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

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26
Mar07

Percepções

por Inês P Queiroz
Fui ver-te. Estavas igual aos últimos dias. Foi uma visita em tudo similar às anteriores. O que mudou foi a minha percepção da realidade. O que antes era um cenário mais idílico, em que sonhava com possíveis recuperações e uma vida a médio prazo, passou a ser muito mais limitado. O tempo passou a ter outro valor. Cada segundo que passo contigo é mais precioso que o anterior. Foi isso que mudou. A importância que lhe atribuo. Ao tempo, as horas, aos minutos, aos dias. Tu estás igual, sem grandes receios, sem grandes ansiedades ou medos (para além dos muitos que já tinhas, é verdade).
Mas essa visão de que só em nós tudo mudou apazigua-me.

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26
Mar07

Percepções

por Inês P Queiroz
Fui ver-te. Estavas igual aos últimos dias. Foi uma visita em tudo similar às anteriores. O que mudou foi a minha percepção da realidade. O que antes era um cenário mais idílico, em que sonhava com possíveis recuperações e uma vida a médio prazo, passou a ser muito mais limitado. O tempo passou a ter outro valor. Cada segundo que passo contigo é mais precioso que o anterior. Foi isso que mudou. A importância que lhe atribuo. Ao tempo, as horas, aos minutos, aos dias. Tu estás igual, sem grandes receios, sem grandes ansiedades ou medos (para além dos muitos que já tinhas, é verdade).
Mas essa visão de que só em nós tudo mudou apazigua-me.

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18
Mar07

Contabilidade

por Inês P Queiroz
Começo a perder a conta aos dias, o que me parece um bom princípio. Já faz quase um mês que ditaram a tua morte. E tu, casmurro como só tu sabes ser, decidiste que ainda não tinha chegado a tua hora e que, dependendo de ti, ainda havias de dar luta.
e sei que é assim que estás, a dar luta. Por mais que mantenhas os olhos fechados quando te visito, por mais cansado e cabisbaixo que te veja sei que, no teu íntimo, não baixaste os braços. Tu lutas, eu sinto-o, mas é difícil, penosamente difícil, manter o espírito 24 horas por dia.
Não é pai? Porque para ti os dias são todos iguais, as horas correrm a um ritmo muito próprio, muito lentamente... demasiado lentamente, posso adivinhar. Dias e noites devem-se confundir na tua memória... o teu calendário deve ser muito peculiar. Imagino o que marcará a evolção do teu tempo... como é que ele corre, como o contabilizas?
Até as visitassão sempre as mesmas...
Nunca foste de grandes conversa mas, agora que não mais voltarás a falar, imagino que tudo seja mais doloroso... ninguém com quem desabafares o que te via na alma... Estás privado de grande parte da tua vida, da tua rotina. Não comes, não falas, não vês os teus amigos, não estás em tua casa... não sabes se isto vai passar ou não....
Eu acredito que ainda tens muito para contar. Eu cá vou estar, a ler-te nos lábios, como gosto de fazer.
Um beijo do tamanho do mundo, e doces sonhos, pai.

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18
Mar07

Contabilidade

por Inês P Queiroz
Começo a perder a conta aos dias, o que me parece um bom princípio. Já faz quase um mês que ditaram a tua morte. E tu, casmurro como só tu sabes ser, decidiste que ainda não tinha chegado a tua hora e que, dependendo de ti, ainda havias de dar luta.
e sei que é assim que estás, a dar luta. Por mais que mantenhas os olhos fechados quando te visito, por mais cansado e cabisbaixo que te veja sei que, no teu íntimo, não baixaste os braços. Tu lutas, eu sinto-o, mas é difícil, penosamente difícil, manter o espírito 24 horas por dia.
Não é pai? Porque para ti os dias são todos iguais, as horas correrm a um ritmo muito próprio, muito lentamente... demasiado lentamente, posso adivinhar. Dias e noites devem-se confundir na tua memória... o teu calendário deve ser muito peculiar. Imagino o que marcará a evolção do teu tempo... como é que ele corre, como o contabilizas?
Até as visitassão sempre as mesmas...
Nunca foste de grandes conversa mas, agora que não mais voltarás a falar, imagino que tudo seja mais doloroso... ninguém com quem desabafares o que te via na alma... Estás privado de grande parte da tua vida, da tua rotina. Não comes, não falas, não vês os teus amigos, não estás em tua casa... não sabes se isto vai passar ou não....
Eu acredito que ainda tens muito para contar. Eu cá vou estar, a ler-te nos lábios, como gosto de fazer.
Um beijo do tamanho do mundo, e doces sonhos, pai.

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08
Mar07

SOBREviver

por Inês P Queiroz
Há dias que não consigo escrever aqui.
Não por falta de assunto ou de vontade. Tem sido mesmo por falta de tempo.
Novo emprego, novas solicitações. O filho que, depois de dois meses de mãe a tempo inteiro, está decidido a reclamar. O pai doente que não tem a devida atenção ou, pelo menos, não tem a visita diária a que já estava acostumado...
Mas hoje é um dia especial. Um dia em que me sinto uma sobrevivente.
Faz hoje dois anos que entrei num bloco operatório sem saber muito bem se iria sair de lá ou em que estado sairia. Tudo era uma incógnita. Depois desta operação, que me mutilou de forma definitiva, passei a ver contabilizada a minha existência.
Os médicos falam em sobrevida. Como se o calendário tivesse parado naquele dia e àquela hora. Como se todos os dias que se seguiram fossem um bónus.
Por tudo o que já vivi nestes dois anos e pelo que ainda espero viver (sobretudo em qualidade), sinto-me feliz e em paz.

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08
Mar07

SOBREviver

por Inês P Queiroz
Há dias que não consigo escrever aqui.
Não por falta de assunto ou de vontade. Tem sido mesmo por falta de tempo.
Novo emprego, novas solicitações. O filho que, depois de dois meses de mãe a tempo inteiro, está decidido a reclamar. O pai doente que não tem a devida atenção ou, pelo menos, não tem a visita diária a que já estava acostumado...
Mas hoje é um dia especial. Um dia em que me sinto uma sobrevivente.
Faz hoje dois anos que entrei num bloco operatório sem saber muito bem se iria sair de lá ou em que estado sairia. Tudo era uma incógnita. Depois desta operação, que me mutilou de forma definitiva, passei a ver contabilizada a minha existência.
Os médicos falam em sobrevida. Como se o calendário tivesse parado naquele dia e àquela hora. Como se todos os dias que se seguiram fossem um bónus.
Por tudo o que já vivi nestes dois anos e pelo que ainda espero viver (sobretudo em qualidade), sinto-me feliz e em paz.

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23
Fev07

DIA 4

por Inês P Queiroz
Tu és danado, pai. Os médicos disseram que não passavas do dia 0 mas tu, teimoso como ninguém, lá decidiste que te caberia a ti, na medida do possível, ditar o dia da tua morte. Neste momento já não sei se a vês tão presente como há uns dias atrás. Mas isso agora também já não interessa. O que importa verdadeiramente é que ainda cá estás, por muito pouco tempo, é verdade. Mas ainda cá estás. A lutar com a teimosia que tantas vezes me fez discutir contigo.
Vejo-te agarrado à vida como nunca. Não depende de ti a tua morte, bem sei. Mas lutar depende e tu, para não variar, deste-me uma grande lição de vida ao demonstrares que é quase sempre possível lutar um bocadinho mais. Lutar pelo menos até que o corpo nos traia... e o teu pode trair-te a qualquer instante. Até lá prometo visitar-te, amar-te, segurar-te na mão e falar-te do meu dia.

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23
Fev07

DIA 4

por Inês P Queiroz
Tu és danado, pai. Os médicos disseram que não passavas do dia 0 mas tu, teimoso como ninguém, lá decidiste que te caberia a ti, na medida do possível, ditar o dia da tua morte. Neste momento já não sei se a vês tão presente como há uns dias atrás. Mas isso agora também já não interessa. O que importa verdadeiramente é que ainda cá estás, por muito pouco tempo, é verdade. Mas ainda cá estás. A lutar com a teimosia que tantas vezes me fez discutir contigo.
Vejo-te agarrado à vida como nunca. Não depende de ti a tua morte, bem sei. Mas lutar depende e tu, para não variar, deste-me uma grande lição de vida ao demonstrares que é quase sempre possível lutar um bocadinho mais. Lutar pelo menos até que o corpo nos traia... e o teu pode trair-te a qualquer instante. Até lá prometo visitar-te, amar-te, segurar-te na mão e falar-te do meu dia.

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22
Fev07

DIA 3

por Inês P Queiroz
Começou exactamente às 00h00.
Será que se vai completar ou será interrompido a meio?
Estou ao telefone a tentar saber como foi a noite, mas não me atendem.
Estamos em suspenso.

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