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Depois de um dia mau pode haver um céu estrelado. O meu reino.

06
Jul09

Festival Panda nunca mais...

por Inês P Queiroz
Ok, eu já não era uma novata nas andanças do Festival Panda. Tinha estado lá na edição passada e o Henrique era mais pequeno. Vai daí, ingenuamente, pensei que este ano a coisa correria ainda melhor e passaríamos uma manhã juntos, ele a delirar de alegria e eu nem por isso, mas tudo bem, ser mãe nem sempre é fácil. Só que, desta vez, as coisas correram mesmo muito mal. Para começar eu tive uma semana bastante complicada de trabalho; muito stress, descansei pouco... digamos que não estava mentalmente preparada para umas 20 mil crianças a correr e a gritar. Ou melhor, não estava preparada para eventuais desvios comportamentais naquele lugar. E, assim para ser simpática e tentar dourar a pílula, digamos que foi uma manhã para esquecer. Muito sol, muitas filas, pouca resistência, muitas birras do Henrique e, para finalizar, ele tentou fugir para o meio da estrada, coisa que nunca tinha acontecido.
Fiquei fora de mim; segurei-o com tanta força que ontem, na praia, podia ver a marca dos meus dedos nos seus bracinhos (esta é a parte em que a comissão de protecção de menores e o senhor do Refúgio Aboim Ascenção me vêm prender). Mas o pior nem foi ele quase morrer atropelado, o pior foi o que ele me disse a seguir, danado por não lhe ter feito as vontades e por lhe ter dado duas valentes palmadas no rabo. Verdade, verdadinha, nunca imaginei que uma criança de cinco anos guardasse em si tamanha crueldade. Sim, ali estava o meu filho a dizer, ou melhor, a gritar para quem quisesse ouvir, que me odiava, que eu era má, que queria viver longe de mim e que nunca mais queria ser meu filho. Não sei o que me deixou mais atordoada, se o medo que tivesse ficado debaixo de um carro mesmo ali à minha frente, ou se o que ouvi daquela boquinha. Mas foi tudo tão desconcertante que, mal chguei perto do meu marido, desatei num pranto.
Não sei que ensinamentos tirarei deste fatídico sábado, mas uma coisa é garantida: Festival Panda, nunca mais

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06
Jan09

o melhor amigo

por Inês P Queiroz
Apesar das desgraças das últimas semanas, lá em casa o Benfica continua a reinar.
O melhor amigo do Henrique é o Rui Costa, um boneco da imaginarium que o meu filho recebeu quando fez dois anos e que trazia um equipamento da selecção nacional de futebol. Ainda teve uma breve disfunção de personalidade, porque no início se chamava Figo, mas poucos meses depois o Henrique perguntou ao pai se podia chamar Rui Costa ao seu amigo. E é curioso ver que o apego dele ao boneco tem vindo a crescer. É o seu filho e a única companhia permitida na cama.

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06
Jan09

o melhor amigo

por Inês P Queiroz
Apesar das desgraças das últimas semanas, lá em casa o Benfica continua a reinar.
O melhor amigo do Henrique é o Rui Costa, um boneco da imaginarium que o meu filho recebeu quando fez dois anos e que trazia um equipamento da selecção nacional de futebol. Ainda teve uma breve disfunção de personalidade, porque no início se chamava Figo, mas poucos meses depois o Henrique perguntou ao pai se podia chamar Rui Costa ao seu amigo. E é curioso ver que o apego dele ao boneco tem vindo a crescer. É o seu filho e a única companhia permitida na cama.

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16
Dez08
Eu bem sei que o meu filho não é melhor que os outros miúdos da idade dele apesar de todas as mães, assim como eu, terem aquela secreta certeza que o seu é ligeiramente melhor que os outros: mais esperto, mais bonito, com o narizinho mais perfeito ou o sorriso mais matreiro. Eu sei que, lá no fundo, ele é apenas um miúdo de 4 anos como todos os outros. Mas assim como tem comportamentos-padrão que fazem dele um igual aos outros, também têm características únicas que o tornam singular.
No passado sábado, depois de uma semana em casa por causa da maldita escarlatina, fomos ao cabeleireiro. Digamos que o cabelço do Henrique já não estava coisa que se apresentasse na escola. E, enquanto ele estava sentada na sua cadeira especial em amena cavaqueira com a cabeleireira, esta pergunta-lhe "Henrique e já pediu as prendas ao Pai Natal?""sim, pedi uma, o camião Mac Faísca", respondeu ele. "Só uma?" indagou a cabeleireira. "Sim, só uma. Estamos em crise", argumentou o meu pequeno economista. Com esta resposta a cableireira desatou a rir e ele, muito ofendido, olhou para ela e disse "Qual é a graça? Não tem graça nenhuma. Estar em crise significa não ter dinheiro".

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16
Dez08
Eu bem sei que o meu filho não é melhor que os outros miúdos da idade dele apesar de todas as mães, assim como eu, terem aquela secreta certeza que o seu é ligeiramente melhor que os outros: mais esperto, mais bonito, com o narizinho mais perfeito ou o sorriso mais matreiro. Eu sei que, lá no fundo, ele é apenas um miúdo de 4 anos como todos os outros. Mas assim como tem comportamentos-padrão que fazem dele um igual aos outros, também têm características únicas que o tornam singular.
No passado sábado, depois de uma semana em casa por causa da maldita escarlatina, fomos ao cabeleireiro. Digamos que o cabelço do Henrique já não estava coisa que se apresentasse na escola. E, enquanto ele estava sentada na sua cadeira especial em amena cavaqueira com a cabeleireira, esta pergunta-lhe "Henrique e já pediu as prendas ao Pai Natal?""sim, pedi uma, o camião Mac Faísca", respondeu ele. "Só uma?" indagou a cabeleireira. "Sim, só uma. Estamos em crise", argumentou o meu pequeno economista. Com esta resposta a cableireira desatou a rir e ele, muito ofendido, olhou para ela e disse "Qual é a graça? Não tem graça nenhuma. Estar em crise significa não ter dinheiro".

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19
Set08

Orgulho de mãe

por Inês P Queiroz
Foi hoje, durante o pequeno-almoço.
O meu filho escreveu, pela primeir vez, a palavra pai.
E eu senti um grande orgulho de mãe

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19
Set08

Orgulho de mãe

por Inês P Queiroz
Foi hoje, durante o pequeno-almoço.
O meu filho escreveu, pela primeir vez, a palavra pai.
E eu senti um grande orgulho de mãe

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15
Set08

Obrigada Dr. Brazelton

por Inês P Queiroz
A minha vida não tem sido fácil. Não é que esteja particularmente infeliz ou com grandes dramas para além dos que já são normais (infelizmente, a doença do meu pai já começa a ter um estranho lado de normalidade). Falo de difícil no sentido de preenchida, na verdade ando quase sem tempo para me coçar. E entre a tentativa de vender a nossa casa, a operação da minha mãe, a doença do meu pai, e as obras da casa nova, deparo-me com um novo problema. O chichi na cama.
Sim, confesso, o meu filho tem feito chichi na cama muitas vezes. Decidi tirar-lhe a fralda. Ele tem quatro anos e é um grande espertalhão em tudo. Vai daí, e levada pelos conselhos alheios, decidi tirar-lhe a fralda. Resultado: mesmo acordando a meio da noite para o por a fazer chichi, a verdade é que encontro a cama molhada pela manhã, umas duas a três vezes por semana.
Comecei a ficar preocupada: 4 anos pareceu-me mais do que a altura certa para ele deixar a fralda à noite. Principalmente porque tirar-lhe a fralda de dia foi muito fácil.
Encontrava-me numa encruzilhada: estava com medo de voltar atrás e voltar a colocar-lhe a fralda à noite (assim ele nunca mais vai deixar a fralda, e isto e aquilo.... diziam-me as vozes sábias) mas, com todo o trabalho que tenho neste momento, estava a ser muito difícil lidar com esta situação de estar sistematicamente a mudar a cama e o pijama.... já me via a deixar o edredão na lavandaria todas as semanas do próximo Inverno....
Até que se fez luz: fui ao escritório procurar o meu livro do Dr. Brazelton, a bíblia das mães que há tanto tempo andava perdida na estante, e senti-me outra mulher. Cada criança tem o seu ritmo. A frase mais lapidar que lá encontrei foi qualquer coisa do género " quando uma criança faz chichi na cama quase sempre a culpa é dos pais". e porquê? Porque insistimos em fazer algo que eles ainda não estão preparados para fazer. Por mais que eu o tente levantar todas as noites para ir à casa de banho, se a bexiga dele não tiver maturidade suficiente ou se os seus ciclos de sono não normalizarem (de modo a que seja capaz de acordar quando tem o sono leve), ele vai continuar a fazer chichi na cama....
O Henrique já sabe o que é uma trivela, come vegetais, usa correctamente termos como desapontado ou excluído, sabe fazer rimas e somas e sabe também escrever o seu nome.... pronto, tenho que admitir que no chichi ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Paciência!

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15
Set08

Obrigada Dr. Brazelton

por Inês P Queiroz
A minha vida não tem sido fácil. Não é que esteja particularmente infeliz ou com grandes dramas para além dos que já são normais (infelizmente, a doença do meu pai já começa a ter um estranho lado de normalidade). Falo de difícil no sentido de preenchida, na verdade ando quase sem tempo para me coçar. E entre a tentativa de vender a nossa casa, a operação da minha mãe, a doença do meu pai, e as obras da casa nova, deparo-me com um novo problema. O chichi na cama.
Sim, confesso, o meu filho tem feito chichi na cama muitas vezes. Decidi tirar-lhe a fralda. Ele tem quatro anos e é um grande espertalhão em tudo. Vai daí, e levada pelos conselhos alheios, decidi tirar-lhe a fralda. Resultado: mesmo acordando a meio da noite para o por a fazer chichi, a verdade é que encontro a cama molhada pela manhã, umas duas a três vezes por semana.
Comecei a ficar preocupada: 4 anos pareceu-me mais do que a altura certa para ele deixar a fralda à noite. Principalmente porque tirar-lhe a fralda de dia foi muito fácil.
Encontrava-me numa encruzilhada: estava com medo de voltar atrás e voltar a colocar-lhe a fralda à noite (assim ele nunca mais vai deixar a fralda, e isto e aquilo.... diziam-me as vozes sábias) mas, com todo o trabalho que tenho neste momento, estava a ser muito difícil lidar com esta situação de estar sistematicamente a mudar a cama e o pijama.... já me via a deixar o edredão na lavandaria todas as semanas do próximo Inverno....
Até que se fez luz: fui ao escritório procurar o meu livro do Dr. Brazelton, a bíblia das mães que há tanto tempo andava perdida na estante, e senti-me outra mulher. Cada criança tem o seu ritmo. A frase mais lapidar que lá encontrei foi qualquer coisa do género " quando uma criança faz chichi na cama quase sempre a culpa é dos pais". e porquê? Porque insistimos em fazer algo que eles ainda não estão preparados para fazer. Por mais que eu o tente levantar todas as noites para ir à casa de banho, se a bexiga dele não tiver maturidade suficiente ou se os seus ciclos de sono não normalizarem (de modo a que seja capaz de acordar quando tem o sono leve), ele vai continuar a fazer chichi na cama....
O Henrique já sabe o que é uma trivela, come vegetais, usa correctamente termos como desapontado ou excluído, sabe fazer rimas e somas e sabe também escrever o seu nome.... pronto, tenho que admitir que no chichi ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Paciência!

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30
Jul08

Dúvida de mãe

por Inês P Queiroz
Há algum mal em oferecer ao filho de quatro anos um dvd das Winx?
Se ele gosta das aventuras das fadas que combatem o mal e se identifica com os seus amigos, heróis prontos a salvá-las de qualquer perigo, qual é o problema?
Por que razão o pai olha para mim com ar reprovador?
Eu também jogava à bola e brincava ao berlinde... e nem por isso tive dúvidas em relação à minha orientação sexual

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30
Jul08

Dúvida de mãe

por Inês P Queiroz
Há algum mal em oferecer ao filho de quatro anos um dvd das Winx?
Se ele gosta das aventuras das fadas que combatem o mal e se identifica com os seus amigos, heróis prontos a salvá-las de qualquer perigo, qual é o problema?
Por que razão o pai olha para mim com ar reprovador?
Eu também jogava à bola e brincava ao berlinde... e nem por isso tive dúvidas em relação à minha orientação sexual

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17
Jun08

Eu e os meus muitos bebés

por Inês P Queiroz
a minha crónica da Pais & Filhos de Dezembro. tinha prometido colocá-las a todas aqui e esqueci-me....


Se esta frase fosse verdadeira, eu teria vários filhos, parte importante dos meus planos de vida em família. Não é que me visse rodeada de cinco ou seis crianças, mas sempre pensei que o Henrique seria o primeiro de dois ou três. O que acabou por não acontecer.
A minha ansiedade/angústia por não poder ter mais filhos é cíclica. Deixou de ser uma obsessão mas, em determinados momentos, dou por mim a pensar que não voltarei a ter a mão sobre a barriga para sentir um bebé mexer.
Há poucas semanas uns amigos devolveram-me roupinhas de bebé do Henrique que eu lhes tinha emprestado para o seu Tiago, agora um valente bebé de seis meses. E ali, a olhar para todos os mimos (e foram muitos) que comprei para o meu primeiro bebé, fiquei triste, a pensar o óbvio: que não teria outro filho a usar aquelas delícias.
Enquanto estava grávida do Henrique fui ao Brasil e, devo confessar, que não me contive: fartei-me de comprar roupa de bebé, pequenas meias, sapatinhos, calções de banho, t-shirts, calções… um sem fim de pequeníssimas peças de roupa que todos os meus filhos usariam.
Quando o Henrique tinha oito meses e me foi diagnosticado cancro, uma das minhas principais preocupações não era a minha morte, tal era o meu grau de inconsciência. O que eu queria assegurar era que, se tivesse de fazer quimioterapia e radioterapia, as mesmas não me impedissem de voltar a ser mãe. Ou seja, eu pensava que a gravidez em si não seria um risco; o máximo que me poderia acontecer era não conseguir engravidar devido aos tratamentos. E arrastei para esta insanidade momentânea a minha querida ginecologista, a quem me lembro de ter telefonado várias vezes a pedir conselhos. Isto antes de saber tudo sobre a minha doença e a sua gravidade. E ela, a minha Alice (é assim que a trato), certamente ciente de todos os riscos que eu corria e da mais que certa impossibilidade de eu voltar a ser mãe, nunca deixou de me atender o telefone, de me dar os contactos dos seus colegas da Infertilidade. E acabei por desistir da ideia de “congelar” óvulos mais pela sua inviabilidade que pela minha noção do que se estava e estaria a passar.
O meu primeiro contacto com essa dura realidade teve lugar numa das minhas primeiras consultas de Oncologia. O médico, que em termos de simpatia e relações humanas deixava muito a desejar, olhou para mim como um burro para um palácio quando lhe perguntei se poderia voltar a ter filhos. “Concentre-se em continuar viva. Quer dois filhos para quê? Para não estar cá para os criar?” Aquelas palavras deixaram-me estupefacta. Hoje percebo-as de outra forma, entendo até o que aquele médico me queria transmitir. Mas naquela altura, em que eu estava tão vulnerável, depois de uma operação tão violenta e sem saber que mais tratamentos se seguiriam, tudo me pareceu de uma frieza brutal.
Tecnicamente posso engravidar. A quimioterapia não me deixou estéril. Mas aqui a técnica só pode ficar no plano das hipóteses e suposições. A verdade é que há um risco grande de voltar a ficar doente se engravidar. Não tenho dados estatísticos, mas sei que esse risco existe e é real. E cabe-me a mim decidir se vale a pena o risco.
Eu adoraria voltar a estar grávida. Foi uma das melhores fases da minha vida. Sentir a barriga crescer, sentir o Henrique mexer, foi mesmo fantástico e único. Mas percebo o que aquele médico queria dizer. Eu não estou livre de voltar a ficar doente, com uma gravidez esse risco aumenta consideravelmente, porque tudo cresce no nosso organismo, tudo se altera. E será que vale a pena arriscar ter outro filho? Para já penso que não.
São várias as pessoas que me falam de adopção. Que tirar uma criança de uma instituição é algo de nobre e, que se tenho tanto amor para dar, posso perfeitamente adoptar uma criança. Também é verdade. Mas parte do risco mantem-se. Tento explicar que, primeiro, eu gostaria muito da experiência física da maternidade, de estar grávida. Segundo, o risco de ficar doente mesmo não voltando a engravidar ainda é real e não é assim tão longínquo como eu gostaria. Por isso, adoptar uma criança, retirá-la de uma instituição, de um ambiente e de um passado difíceis para a colocar perante uma hipótese de orfandade, é algo que me atormenta. Claro que todos nós corremos o risco de morrer, mas quer queira quer não, uns correm mais riscos que outros.
Mas, felizmente, a minha vida é preenchida com outras crianças. As das minhas amigas, aquelas pessoas especiais que nunca me deixaram enquanto estive doente. E, pelas últimas notícias, mais bebés se vêm juntar a minha lista de preferidos. Vejamos, o Martim nasce em Dezembro, a Madalena em Fevereiro (se for mesmo uma querida escolhe o dia do meu aniversário para visitar este mundo), e mais quatro chegarão até ao Verão. Alguns deles ainda sem nome, outros até desconheço o sexo.
E aqui me vejo, rodeada das roupas de bebé do Henrique, a separar por montinhos para poder emprestar a todos, cheia de vontade de tricotar mantinhas e bordar fraldas. E sinto-me mais preenchida e feliz. Já que não posso ser mãe. Serei uma grande tia! Dos meus outros bebés.

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17
Jun08

Eu e os meus muitos bebés

por Inês P Queiroz
a minha crónica da Pais & Filhos de Dezembro. tinha prometido colocá-las a todas aqui e esqueci-me....


Se esta frase fosse verdadeira, eu teria vários filhos, parte importante dos meus planos de vida em família. Não é que me visse rodeada de cinco ou seis crianças, mas sempre pensei que o Henrique seria o primeiro de dois ou três. O que acabou por não acontecer.
A minha ansiedade/angústia por não poder ter mais filhos é cíclica. Deixou de ser uma obsessão mas, em determinados momentos, dou por mim a pensar que não voltarei a ter a mão sobre a barriga para sentir um bebé mexer.
Há poucas semanas uns amigos devolveram-me roupinhas de bebé do Henrique que eu lhes tinha emprestado para o seu Tiago, agora um valente bebé de seis meses. E ali, a olhar para todos os mimos (e foram muitos) que comprei para o meu primeiro bebé, fiquei triste, a pensar o óbvio: que não teria outro filho a usar aquelas delícias.
Enquanto estava grávida do Henrique fui ao Brasil e, devo confessar, que não me contive: fartei-me de comprar roupa de bebé, pequenas meias, sapatinhos, calções de banho, t-shirts, calções… um sem fim de pequeníssimas peças de roupa que todos os meus filhos usariam.
Quando o Henrique tinha oito meses e me foi diagnosticado cancro, uma das minhas principais preocupações não era a minha morte, tal era o meu grau de inconsciência. O que eu queria assegurar era que, se tivesse de fazer quimioterapia e radioterapia, as mesmas não me impedissem de voltar a ser mãe. Ou seja, eu pensava que a gravidez em si não seria um risco; o máximo que me poderia acontecer era não conseguir engravidar devido aos tratamentos. E arrastei para esta insanidade momentânea a minha querida ginecologista, a quem me lembro de ter telefonado várias vezes a pedir conselhos. Isto antes de saber tudo sobre a minha doença e a sua gravidade. E ela, a minha Alice (é assim que a trato), certamente ciente de todos os riscos que eu corria e da mais que certa impossibilidade de eu voltar a ser mãe, nunca deixou de me atender o telefone, de me dar os contactos dos seus colegas da Infertilidade. E acabei por desistir da ideia de “congelar” óvulos mais pela sua inviabilidade que pela minha noção do que se estava e estaria a passar.
O meu primeiro contacto com essa dura realidade teve lugar numa das minhas primeiras consultas de Oncologia. O médico, que em termos de simpatia e relações humanas deixava muito a desejar, olhou para mim como um burro para um palácio quando lhe perguntei se poderia voltar a ter filhos. “Concentre-se em continuar viva. Quer dois filhos para quê? Para não estar cá para os criar?” Aquelas palavras deixaram-me estupefacta. Hoje percebo-as de outra forma, entendo até o que aquele médico me queria transmitir. Mas naquela altura, em que eu estava tão vulnerável, depois de uma operação tão violenta e sem saber que mais tratamentos se seguiriam, tudo me pareceu de uma frieza brutal.
Tecnicamente posso engravidar. A quimioterapia não me deixou estéril. Mas aqui a técnica só pode ficar no plano das hipóteses e suposições. A verdade é que há um risco grande de voltar a ficar doente se engravidar. Não tenho dados estatísticos, mas sei que esse risco existe e é real. E cabe-me a mim decidir se vale a pena o risco.
Eu adoraria voltar a estar grávida. Foi uma das melhores fases da minha vida. Sentir a barriga crescer, sentir o Henrique mexer, foi mesmo fantástico e único. Mas percebo o que aquele médico queria dizer. Eu não estou livre de voltar a ficar doente, com uma gravidez esse risco aumenta consideravelmente, porque tudo cresce no nosso organismo, tudo se altera. E será que vale a pena arriscar ter outro filho? Para já penso que não.
São várias as pessoas que me falam de adopção. Que tirar uma criança de uma instituição é algo de nobre e, que se tenho tanto amor para dar, posso perfeitamente adoptar uma criança. Também é verdade. Mas parte do risco mantem-se. Tento explicar que, primeiro, eu gostaria muito da experiência física da maternidade, de estar grávida. Segundo, o risco de ficar doente mesmo não voltando a engravidar ainda é real e não é assim tão longínquo como eu gostaria. Por isso, adoptar uma criança, retirá-la de uma instituição, de um ambiente e de um passado difíceis para a colocar perante uma hipótese de orfandade, é algo que me atormenta. Claro que todos nós corremos o risco de morrer, mas quer queira quer não, uns correm mais riscos que outros.
Mas, felizmente, a minha vida é preenchida com outras crianças. As das minhas amigas, aquelas pessoas especiais que nunca me deixaram enquanto estive doente. E, pelas últimas notícias, mais bebés se vêm juntar a minha lista de preferidos. Vejamos, o Martim nasce em Dezembro, a Madalena em Fevereiro (se for mesmo uma querida escolhe o dia do meu aniversário para visitar este mundo), e mais quatro chegarão até ao Verão. Alguns deles ainda sem nome, outros até desconheço o sexo.
E aqui me vejo, rodeada das roupas de bebé do Henrique, a separar por montinhos para poder emprestar a todos, cheia de vontade de tricotar mantinhas e bordar fraldas. E sinto-me mais preenchida e feliz. Já que não posso ser mãe. Serei uma grande tia! Dos meus outros bebés.

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