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Depois de um dia mau pode haver um céu estrelado. O meu reino.

03
Fev14

Respirar de alívio

por Inês P Queiroz
eu dizia que não, que não andava preocupada, que tinha a certeza que estava tudo bem. Que dormia descansada e tudo e tudo, mas a verdade verdadinha é que me tiraram um peso de cima dos ombros.
Na minha última revisão tinha o valor de um marcador tumoral alterado. Ainda estava dentro dos valores normais, mas estava no limite superior. O meu médico disse para não me assustar, que era normal porque tinha passado por uma gravidez; que tinha os restantes exames que me diziam que estava tudo bem... mas, pelo sim pelo não mandou-me repetir a análise no dia 6 de Janeiro.
E lá fui. Deveria ligar duas semanas depois para saber o resultado, mas fui adiando. Não sei bem porquê (ou talvez saiba), fui deixando para amanhã, e para depois de amanhã....e só que chega a um dia em que não dá mais para adiar. Seja qual for o resultado tem de se encarar a coisa. E hoje lá liguei. E aqueles minutos de espera, em que oiço o médico teclar mas em que nenhum de nós diz uma palavra, pareceram-me horas...
Afinal está tudo bem, os valores voltaram a descer. Não há bicho mau aqui para estas bandas (a não ser o meu mau feitio).

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04
Fev10

bipolar

por Inês P Queiroz
Esta é a definição perfeita para o dia que hoje acaba (ou talvez não esteja assim tão perto de acabar, já que acho que ainda vou fazer um tour à Cuf das Descobertas com o meu filho).
Começou mal, depois de uma madrugada em branco. Sim, depois de uma noite de segunda com chichi na cama e a de terça com tosse cavernosa, a de ontem foi mais original:paragem de digestão às 5 da manhã para não mais dormirmos. Portanto, assim de levezinho, pode-se dizer que ando com humor de cão (cadela). Mas como dizia, o dia começou mal mas logo se recompôs. No meio deste carrocel que tem sido a minha vida nos últimos dias esqueci-me de aqui dizer que começaram os exames oficiais para a minha revisão dos 5 mil estar completa ou, melhor ainda, estamos quase em condições de fazer a festa do mata-bicho (depois de 8 de Março). Lá fui eu, de olheiras até aos joelhos fazer a minha querida endoscopia. Tudo bem, tudo "lindo", nas palavras do médico. Segundo ele vou vier até aos 74.
Mas, depois de queimada esta adrenalina, passei o resto do dia em transe, à espera que o telefone tocasse e a minha C me desse notícias da p* da petazeta que ela tem na cabeça.
O diagnóstico não é o melhor, mas também não é o pior. Pode-se dizer que fiquei algo tranquila. Porque não é fatal e porque sei o que se está a passar. Pela primeira vez nesta semana sabemos o que se está a passar. E isso é reconfortante. Mas corta-me o coração saber que na próxima terça-feira, quando eu estiver a rumar a NY (viagem para a qual te convidei, C), ela, a minha amiga mais querida de todas, vai estar a ser operada.
Caraças, e ainda nem sequer é sexta-feira!

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10
Dez09

tudo isto numa semana?

por Inês P Queiroz
Pois, desde o nosso fantástico e retemperador fim-de-semana na costa vicentina já montámos a árvore de Natal, já fomos às Caldas comprar prendas, já fomos ao circo, já conhecemos as gémeas mais bonitas da cidade, já lhes comprámos a sua primeira árvore de Natal e, para borrar a pintura, já passámos 4 horas no Hospital da Estefânia de onde o petiz saiu com uma infecção urinária. Passámos duas noites difíceis mas hoje a vida voltou quase ao normal: o Henrique regressou à escola para contar a melhor novidade de todas aos seus amigos: viu a Guerra das Estrelas... e hoje vai fazer um texto da Estrela da Morte no momento em que o Luke Skywalker dispara sobre ela.
É maravilhoso ver que, depois de uma doença, a memória que lhe fica

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27
Out09
e já estou de rastos, confesso.
Comecei a minha semana de trabalho com praticamente duas directas em cima. O Henrique, que parecia estar a resistir lindamente às mudanças de temperatura, começou a tossir no sábado à tarde para não mais parar. Chamámos um médico a casa na madrugada de sábado mas, mesmo medicado, voltou a não dormir na noite de domingo. Ele e todos cá em casa. Com a agravante do pai, como anda de braço ao peito, não poder ajudar a pegar no pimpolho ao colo.
Eu, que já andava estoirada com o volume de trabalho, fiquei nas lonas. Comecei a segunda com cara de sexta... resultado, a coisa não correu bem, no escritório. Gritei, esbracejei, refilei... porque estava cansada, é verdade, mas porque também é preciso. De vez em quando é preciso que saibam que não somos feitos de gelatina. Não me levem a mal, gosto muito de gelatina, mas no prato.
O dia de segunda acabou com uma ida ao consultório da pediatra, onde deixei mais 80 euros e de onde saí com um novo saco de medicamentos. Tirando a laringite e a crise de tosse (que é assustadora, acreditem).
Mas as coisas vão melhorar, acredito. A empregada nova já começou e deixou boa impressão em todos cá em casa, a minha mãe continua a ajudar de forma preciosa e eu consegui dormir seis horas na noite passada. Não as oito de que tanto preciso, mas seis já não é mau.
Só a parte do trabalho é que não há maneira de abrandar... acho que o melhor é levar qualquer coisa de alfazema para queimar no escritório, antes que parta a cara a alguém...
mas, antes disso, vou rezar para que o pequeno pirata passe uma boa noite... ele e eu. E, já agora, tentar não adormecer antes do episódio da anatomia de grey que está quase a começar e que é uma das alegrias da minha vidinha. E, se não for pedir muito, queria mesmo chegar inteira a sexta-feira

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23
Jun09

Reeducar o bicho

por Inês P Queiroz
Já fiz a revisão! Não a dos 70 mil quilómetros, mas a dos 4 anos. E passei. Análises, ecografia, conversa com o médico e ... está tudo bem. Agora entro numa nova fase: a da preparação para os cinco anos. Da próxima vez que for ao hospital (em Dezembro) será para uma conversa com o médico e para marcar uma bateria de exames para Março de 2010, altura em que ultrapassarei a mítica barreira dos cinco anos. E iniciei também uma nova etapa da minha compreensão e vivência das minhas limitações. Ultimamente tenho tido algumas queixas. Andei até preocupada, com medo de ter algum problema. Mas, ao que parece, o meu problema é comer demasiado. Nunca pensei poder voltar a dizer isto, mas a verdade verdadinha é que como como muito e não o posso fazer. Porque as consequências são desagradáveis. Reeducação alimentar, é o próximo passo. Não deixa de ter graça eu que depois da operação, há quatro anos, não conseguia comer mais de três colheres de cerelac, agora como demais:)
Podia ser pior, podia ser pior

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02
Abr09

Esta quinta está a ser diferente

por Inês P Queiroz
Esta noite não foi como as demais noites de quinta-feira. Ele estava em casa da avó e quando lá cheguei já dormia. Apesar de pouco passar das oito. Não jantou. Pelo caminho despertou e veio em amena cavaqueira, contando as peripécias destes dois dias sem pais. Mas, mal pós o pé em casa voltou a ficar quebrado. Tem febre, doi-lhe a garganta, tem tosse... está aqui ao meu lado, como nas demais noites de quinta-feira, mas está doente.

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18
Mar09

Rir é mesmo o melhor remédio

por Inês P Queiroz
O Público de hoje traz uma notícia de uma página com o seguinte título "Ordem dos Médicos apoia recurso a tribunal de doentes oncológicos". Eu pergunto-me como. Só se for rezando por eles uma vez que, tratando-se de doentes terminais aos quais é negado tratamento por este ser caro, dificilmente sobreviverão para defender os seus processos em tribunal.
A Ordem está cheia de boas intenções, não o nego, mas aqui a iniciativa quer-se do lado do Governo e da Administração dos Hospitais. É a eles que lhes tem de ser exigido rigor, eles é que têm de pensar no melhor interesse do doente e não nos orçamentos. Enquanto assim não for, de nada servirá aos médicos oncologistas prescrever certos fármacos que sabem, à partida, não serão administrados. E os doentes, que são terminais, mesmo que avancem para a justiça escudados na Ordem, dificilmente viverão para ver quem tinha razão.

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09
Mar09

Aniversários

por Inês P Queiroz
Ontem, dia 8 de Março, não comemorei o Dia Internacional da Mulher. Ontem, dia 8 de Março, comemorei com um Porto na esplanada da Graça, o 4º aniversário da minha operação.
Obrigada a todos os amigos!

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21
Jan09
Ainda a propósito da morte com cancro e porque não quero usar como exemplo um mau exemplo. Eu não conhecia a Tereza Coelho e, hoje em conversa, disseram-me que, afinal ela não tinha cancro mas um tumor benigno e que a sua pneumonia em nada estava relacionada com cancro... Sendo assim, esqueçamos o caso da Tereza (apesar de alguns orgãos terem noticiado que ela tinha morrido de cancro). O que eu acho é que quando a pessoa morre de uma complicação do cancro tal não deve ser escamoteado. O meu pai, por exemplo, teve cancro da hipofaringe. Morreu de uma complicação da sua doença. Se tivesse sido atropelado ao atravessar a rua não seria de uma complicação do cancro. Mas como morreu dos efeitos da radioterapia. a verdade, pelo menos a minha verdade, é que morreu de uma complicação do cancro.

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21
Jan09
Ainda a propósito da morte com cancro e porque não quero usar como exemplo um mau exemplo. Eu não conhecia a Tereza Coelho e, hoje em conversa, disseram-me que, afinal ela não tinha cancro mas um tumor benigno e que a sua pneumonia em nada estava relacionada com cancro... Sendo assim, esqueçamos o caso da Tereza (apesar de alguns orgãos terem noticiado que ela tinha morrido de cancro). O que eu acho é que quando a pessoa morre de uma complicação do cancro tal não deve ser escamoteado. O meu pai, por exemplo, teve cancro da hipofaringe. Morreu de uma complicação da sua doença. Se tivesse sido atropelado ao atravessar a rua não seria de uma complicação do cancro. Mas como morreu dos efeitos da radioterapia. a verdade, pelo menos a minha verdade, é que morreu de uma complicação do cancro.

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19
Jan09

Morrer de cancro é indigno?

por Inês P Queiroz
Infelizmente este fim-de-semana foi pesado na contabilidade das mortes de cancro...Tereza Coelho, Luis Vasconcellos, João Aguardela. Todas pessoas que não conhecia (apesar de trabalhar na mesma empresa que Tereza Coelho). Todas elas morreram de cancro, ou de complicações.
No caso da Tereza Coelho foram várias as homenagens prestadas em vários jornais e blogues. A mais bonita, a meu ver, perteceu à Isabel Coutinho. Mas há uma coisa que eu não percebo: no artigo do Público le-se que Tereza Coelho morreu de complicações de uma Pneumonia. é só meia verdade, na medida em que a pneumonia era, já ela, uma complicação do cancro.
E talvez seja um preciosismo meu, que tive cancro. Ou talvez não. Mas parece-me que os jornalistas ainda têm medo de escrever que uma pessoa morreu de cancro. Qual é a diferença entre morrer de cancro, de pneumonia, de enfarte? Por acaso é menos digno morrer de cancro?
Há anos, durante uma entrevista que o meu marido fez a António Mega Ferreira este, que recuperava de um tumor maligno, dizia mais o menos o mesmo, que as pessoas em Portugal morriam de doença prolongada...
Eu tive cancro. E se morrer de alguma complicação da minha doença não quero que se diga outra coisa que não a verdade.

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19
Jan09

Morrer de cancro é indigno?

por Inês P Queiroz
Infelizmente este fim-de-semana foi pesado na contabilidade das mortes de cancro...Tereza Coelho, Luis Vasconcellos, João Aguardela. Todas pessoas que não conhecia (apesar de trabalhar na mesma empresa que Tereza Coelho). Todas elas morreram de cancro, ou de complicações.
No caso da Tereza Coelho foram várias as homenagens prestadas em vários jornais e blogues. A mais bonita, a meu ver, perteceu à Isabel Coutinho. Mas há uma coisa que eu não percebo: no artigo do Público le-se que Tereza Coelho morreu de complicações de uma Pneumonia. é só meia verdade, na medida em que a pneumonia era, já ela, uma complicação do cancro.
E talvez seja um preciosismo meu, que tive cancro. Ou talvez não. Mas parece-me que os jornalistas ainda têm medo de escrever que uma pessoa morreu de cancro. Qual é a diferença entre morrer de cancro, de pneumonia, de enfarte? Por acaso é menos digno morrer de cancro?
Há anos, durante uma entrevista que o meu marido fez a António Mega Ferreira este, que recuperava de um tumor maligno, dizia mais o menos o mesmo, que as pessoas em Portugal morriam de doença prolongada...
Eu tive cancro. E se morrer de alguma complicação da minha doença não quero que se diga outra coisa que não a verdade.

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06
Out08

relato de um quotidiano triste

por Inês P Queiroz
São muitas dúvidas e angustias que me ocupam o coração nestes dias. O meu pai continua internado, cada vez mais triste, cada vez mais desiludido e frágil.
Ele está vivo, eu sei. Mas a que custo? Com que qualidade de vida? com que alegrias?
é absolutamente inacreditável a forma como o conceito de normalidade, de qualidade de vida, tem mudado ao longo destes últimos meses... primeiro ia deixar de falar, depois de comer pela sua boca, depois morrer, depois ia ser alimentado por uma sonda o resto da vida, depois a falsa esperança de voltar a comer.... e agora o estado em que ele está, sem poder ser alimentado... sem poder sair do hospital para passar os últimos tempos da sua vida em casa, junto dos seus.
No meio de tanta desgraça e tristeza, este fim-de-semana cruzou-se no nosso caminho um médico extraordinário. Não falo das suas capacidades de cirurgião, que desconheço, mas das suas qualidades enquanto ser humano. Primeiro prontificou-se a aceitar o meu pai como seu paciente, o que já não é pouco. Todos passam por lá, mas nenhum se chega à frente. Doentes complicados, não, obrigada.
Mas não foi só por isso que este médico, Dr. Fernando Leitão, ficou gravado no coração da minha família. Foi, sobretudo, por se ter dignado a falar connosco, por nos ter dito abertamente o que pensava, por ter partilhado connosco o seu ponto de vista em relação a doentes na situação do meu pai. Por se ter chegado à frente para operar o meu pai, mesmo que não tivessemos dinheiro para pagar.
Este médico mostrou-nos que ainda há quem pratique medicina com nobreza e honra. O que é uma raridade nos dias que correm.
E este médico fez-me voltar aos meus eternos conflitos emocionais quando penso na situação do meu pai. Porque ele, assim como eu, crê que anes de mexer, antes de operar, um cirurgião deve estar preocupado com o que vai trazer para o paciente e não com as experiências que vai praticar, ou com o dinheiro que vai arrecadar.
Para o meu pai é bom que alguém assim se cruze com ele, mesmo que o tempo que lhe resta seja pouco.

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06
Out08

relato de um quotidiano triste

por Inês P Queiroz
São muitas dúvidas e angustias que me ocupam o coração nestes dias. O meu pai continua internado, cada vez mais triste, cada vez mais desiludido e frágil.
Ele está vivo, eu sei. Mas a que custo? Com que qualidade de vida? com que alegrias?
é absolutamente inacreditável a forma como o conceito de normalidade, de qualidade de vida, tem mudado ao longo destes últimos meses... primeiro ia deixar de falar, depois de comer pela sua boca, depois morrer, depois ia ser alimentado por uma sonda o resto da vida, depois a falsa esperança de voltar a comer.... e agora o estado em que ele está, sem poder ser alimentado... sem poder sair do hospital para passar os últimos tempos da sua vida em casa, junto dos seus.
No meio de tanta desgraça e tristeza, este fim-de-semana cruzou-se no nosso caminho um médico extraordinário. Não falo das suas capacidades de cirurgião, que desconheço, mas das suas qualidades enquanto ser humano. Primeiro prontificou-se a aceitar o meu pai como seu paciente, o que já não é pouco. Todos passam por lá, mas nenhum se chega à frente. Doentes complicados, não, obrigada.
Mas não foi só por isso que este médico, Dr. Fernando Leitão, ficou gravado no coração da minha família. Foi, sobretudo, por se ter dignado a falar connosco, por nos ter dito abertamente o que pensava, por ter partilhado connosco o seu ponto de vista em relação a doentes na situação do meu pai. Por se ter chegado à frente para operar o meu pai, mesmo que não tivessemos dinheiro para pagar.
Este médico mostrou-nos que ainda há quem pratique medicina com nobreza e honra. O que é uma raridade nos dias que correm.
E este médico fez-me voltar aos meus eternos conflitos emocionais quando penso na situação do meu pai. Porque ele, assim como eu, crê que anes de mexer, antes de operar, um cirurgião deve estar preocupado com o que vai trazer para o paciente e não com as experiências que vai praticar, ou com o dinheiro que vai arrecadar.
Para o meu pai é bom que alguém assim se cruze com ele, mesmo que o tempo que lhe resta seja pouco.

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17
Set08

Outra vez o meu pai

por Inês P Queiroz
Tento não estar sempre a falar nele, se bem que me acompanha todos os dias. Puno-me pelo pouco tempo que lhe dedico. Até aqui, caramba! O meu pai continua a lutar. e eu pergunto-me, tantas vezes, para quê. Para quem. Mas ele lá está, naquele aquário (é assim que chamo àquela sala envidraçada), sozinho, triste, desamparado e com muito medo Agora que recuperou intelectualmente e que tem noção mais ou menos exacta de tudo o que aconteceu em Madrid, de como veio bastante pior do que foi, ele sente-se triste e assustado. Eu sei. Está nos seus olhos. Neste momento está tudo tão indefinido... tento ter coragem para acreditar que vai melhorar. E sinto saudades daquele Deus que me acompanhava quando era miúda. Como gostava que ele ainda fizesse parte de mim, das minhas angústias, dos meus medos, das minhas explicações da vida... mas não consigo. E tento, a sério que tento. Entro em igrejas à procura daquela fé antiga, mas não a encontro.
O meu pai anda tão triste. e eu com ele. O meu pai sempre foi um homem amigo do seu amigo, dispoínivel para os outros (às vezes até mais do que para nós). E agora que está doente, agora que está internado e só, os seus amigos, os seus queridos amigos de sempre, deixaram-no ainda mais só. Porque à doença juntou-se a sensação de abandono. Os amigos, com a excepção de um ou outro, não o vão visitar. Sentem-se impressionados, dizem. Que raio de egoísmo é este que uma pessoa, em hora de aflicção pensa mais em si que no amigo doente....?
Penso nisto e fico triste... apetecia-me correr meio mundo à chapada, ao pontapé. Abaná-los... Começo a ficar com a amargura da minha mãe... não me venham com falas mansas um dia que ele se vá, que eu nã sei do que serei capaz.

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17
Set08

Outra vez o meu pai

por Inês P Queiroz
Tento não estar sempre a falar nele, se bem que me acompanha todos os dias. Puno-me pelo pouco tempo que lhe dedico. Até aqui, caramba! O meu pai continua a lutar. e eu pergunto-me, tantas vezes, para quê. Para quem. Mas ele lá está, naquele aquário (é assim que chamo àquela sala envidraçada), sozinho, triste, desamparado e com muito medo Agora que recuperou intelectualmente e que tem noção mais ou menos exacta de tudo o que aconteceu em Madrid, de como veio bastante pior do que foi, ele sente-se triste e assustado. Eu sei. Está nos seus olhos. Neste momento está tudo tão indefinido... tento ter coragem para acreditar que vai melhorar. E sinto saudades daquele Deus que me acompanhava quando era miúda. Como gostava que ele ainda fizesse parte de mim, das minhas angústias, dos meus medos, das minhas explicações da vida... mas não consigo. E tento, a sério que tento. Entro em igrejas à procura daquela fé antiga, mas não a encontro.
O meu pai anda tão triste. e eu com ele. O meu pai sempre foi um homem amigo do seu amigo, dispoínivel para os outros (às vezes até mais do que para nós). E agora que está doente, agora que está internado e só, os seus amigos, os seus queridos amigos de sempre, deixaram-no ainda mais só. Porque à doença juntou-se a sensação de abandono. Os amigos, com a excepção de um ou outro, não o vão visitar. Sentem-se impressionados, dizem. Que raio de egoísmo é este que uma pessoa, em hora de aflicção pensa mais em si que no amigo doente....?
Penso nisto e fico triste... apetecia-me correr meio mundo à chapada, ao pontapé. Abaná-los... Começo a ficar com a amargura da minha mãe... não me venham com falas mansas um dia que ele se vá, que eu nã sei do que serei capaz.

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22
Jun07

A dignidade

por Inês P Queiroz
O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

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22
Jun07

A dignidade

por Inês P Queiroz
O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

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11
Jun07

Datas

por Inês P Queiroz
Amanhã o meu filho faz três anos.
Amanhã faz um ano que me casei.
Hoje telefonei à minha mãe para voltar a insistir nesta coisa de nos vermos, de tentarmos passar juntas algum tempo de qualidade.
Ela estava triste, de voz rouca. "Hoje estou em baixo", disse-me. "Faz quatro meses que o pai está internado". Quatro meses, pensei. Quatro meses, penso agora. Se é verdade que houve um momento em que pensei que tudo ia acabar, não é menos verdade que há quatro meses atrás eu pensei que o meu pai iria fazer uma operação muito complicada e mutiladora, mas que quando passasse o pós-operatório, iria para casa, para junto dos seus, sem mais complicações do que aquelas que já sabíamos. O meu pai ia tirar a faringe, iria deixar de falar para sempre mas, com um bocadinho de sorte, continuaria a comer pela sua boca.
Hoje, quatro meses depois, o meu pai está vivo, o que, logo à partida, contraria todas as perspectivas e finta todas as contabilidades, mas perdeu muito mais do que a voz.
Enquanto falava com a minha mãe pensava nas datas e de como simplesmente deveríamos apagar algumas da nossa vida. ´
Há datas que não se deviam lembrar, deveriam permanecer no esquecimento.
O 11 de Fevereiro é uma delas. e todos os 11 que se seguem no calendário também.

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11
Jun07

Datas

por Inês P Queiroz
Amanhã o meu filho faz três anos.
Amanhã faz um ano que me casei.
Hoje telefonei à minha mãe para voltar a insistir nesta coisa de nos vermos, de tentarmos passar juntas algum tempo de qualidade.
Ela estava triste, de voz rouca. "Hoje estou em baixo", disse-me. "Faz quatro meses que o pai está internado". Quatro meses, pensei. Quatro meses, penso agora. Se é verdade que houve um momento em que pensei que tudo ia acabar, não é menos verdade que há quatro meses atrás eu pensei que o meu pai iria fazer uma operação muito complicada e mutiladora, mas que quando passasse o pós-operatório, iria para casa, para junto dos seus, sem mais complicações do que aquelas que já sabíamos. O meu pai ia tirar a faringe, iria deixar de falar para sempre mas, com um bocadinho de sorte, continuaria a comer pela sua boca.
Hoje, quatro meses depois, o meu pai está vivo, o que, logo à partida, contraria todas as perspectivas e finta todas as contabilidades, mas perdeu muito mais do que a voz.
Enquanto falava com a minha mãe pensava nas datas e de como simplesmente deveríamos apagar algumas da nossa vida. ´
Há datas que não se deviam lembrar, deveriam permanecer no esquecimento.
O 11 de Fevereiro é uma delas. e todos os 11 que se seguem no calendário também.

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