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Depois de um dia mau pode haver um céu estrelado. O meu reino.


14
Dez14

O perigo dos fundamentalismos

por Inês P Queiroz

Hoje, por razões várias, vi-me forçada a pensar num assunto que mexe comigo e sobre o qual já falei várias vezes, mas que nunca é demais relembrar. O perigo dos fundamentalismos.

Não vou trazer a esta discussão os de carácter religioso ou político. Vou apenas concentrar-me nos fundamentalismos que mexem connosco, mulheres e mães, pessoas empenhadas em fazer o melhor possível pelos seus filhos, mesmo que tropeçando e errando aqui e acolá.

A meu ver o fundamentalismo para com os filhos começa antes de eles o serem, quando a mulher se vê julgada e condenada em praça pública quando e se decide pôr termo a uma gravidez. Para mim, a mulher que aborta, salvo casos muito raros, está perante uma decisão difícil, que nunca esquecerá. Enfrenta uma dor grande, gigantesca. É como uma ferida aberta no coração. Sara, cicatriza, mas basta um pequeno esforço para ela voltar a sangrar. Basta um dia triste, uma roupa, um cheiro, o nascimento de outro bebé, uma ida à maternidade, o aniversário da fatídica data... Basta viver para carregar essa dor.

Mas há os fundamentalistas da vida. E para esses a mulher que aborta é uma criminosa. Matou ao não permitir que uma vida se gerasse.

Depois temos os fundamentalistas da amamentação. E para esses mãe que não amamenta é uma criminosa que não zela pelo bem-estar do seu filho; é uma egoísta que coloca a estética do seu corpo acima da saúde do filho. Sim, porque as crianças amamentadas são mais fortes, e saudáveis, e bonitas, e felizes, e resilientes, e tudo e tudo.

No extremo oposto temos os fundamentalistas que se escandalizam com a amamentação. Porque é feio, e grotesco, porque ninguém deveria estar sujeito à agressão de ver uma maminha em público, mesmo que de relance. Ver um grande decote ou um rabo quase de fora não tem mal nenhum. Já uma mãe a amamentar...cruzes credo.

Depois, se tivemos o bom senso de não abortar e a criança sobreviveu à amamentação, temos de atravessar calvário da educação. Do gritar, da palmada... E aí entramos num campeonato completamente diferente no que ao fundamentalismo e aos seus perigos diz respeito. Podemos ser a mãe banana e permissiva, que dá liberdade a mais à criança ou, se ousarmos dar-lhe duas ou três valentes palmadas em publico, passamos rapidamente a ser a mãe agressora e criminosa, que ouve insultos, que é maltratada e ameaçada. E aqui o caso muda de figura porque os maus tratos infantis são crime público. Quer isto dizer que basta um fundamentalista na rua para uma mãe desesperada que perdeu as estribeiras e espetou duas ou três palmadas no filho, passar rapidamente a uma criminosa que vai, com quase toda a certeza, ser chamada a tribunal. E o que acontece nestes casos?

Fundamentalismos à parte, ter filhos é a melhor coisa do mundo. Mas no mundo actual, onde todos se julgam detentores da verdade absoluta e do juízo moral perfeito, pode também significar um perigo enorme. E isso arrepia-me e dá-me muito medo.

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3 comentários

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De Papoila a 15.12.2014 às 16:21

Não escreveria este tema de outra forma.
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De helena a 16.12.2014 às 17:36

Não tenho paciência e sou pouco tolerante com os fundamentalistas, tenho medo deles e de generalizações. O meu filho mamou até aos dois meses e pouco, não que eu não quisesse dar de mamar ou que tenha feito alguma coisa para isso, mas aconteceu, fiquei sem leite e o rapaz tinha que ser alimentado. O puto não podia ter sido mais saudável, forte e desenvolto, com um desenvolvimento motor notável, até aos 17 anos não tomou um único antibiótico. Por isso não posso dizer mal dos leites artificiais que lhe dei.

Quanto à amamentação em público, cada um sabe de si, não me causa repulsa nem desvio o olhar, mas também não fico maravilhada e "ai tão lindo, ai tão belo", percebo ambos os lados, as que o fazem sem pudor e as pessoas que pedem mais recato.

Os julgamentos das crianças dos outros também me enerva e juízos de valor sem conhecimento de causa ainda mais.


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De Maria a 23.12.2014 às 01:08

Gostei imenso deste post, e tendo uma filha pequena ainda faz mais sentido. Obrigada por estes tão bons momentos de leitura 😊

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