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Depois de um dia mau pode haver um céu estrelado. O meu reino.


15
Mai15

Justificar a maldade

por Inês P Queiroz
Estou em choque com o vídeo da agressão ao miúdo de Salvaterra. Estou em choque com a morte de um outro miúdo de 14 anos. Estou em choque por saber que, no caso da miúda que há tempos foi agredida por umas colegas, as penas do tribunal não foram cumpridas até hoje. Estou em choque. Sou mãe e não sei que mundo é este onde coloquei os meus filhos. O desrespeito pelo próximo, o sentimento de impunidade, a justificação permanente... Não entendo, juro que não entendo. Todos podemos tentar perceber o que leva alguém a agredir, todos temos legitimidade para averiguar causas e porquês. Mas isso é uma coisa. Outra, completamente diferente, é atenuar a gravidade dos acontecimentos. O que se vê naquele vídeo do miúdo que apanha e é humilhado frente a uma câmara de Telemovel e a meia dúzia de marmanjos, só tem um nome: agressão. E não pode ser atenuado. Estes jovens agem desta forma porque sabem que têm as costas quentes. Haverá sempre alguém que vem falar do sofrimento do agressor, e de que ele próprio é vítima. E desta forma legitimam a próxima agressão. E mais uma, e mais outra. Dizia o pai de uma das agressoras que não tinha justificação para o sucedido mas que não se devia particularizar. Porque a filha estava num grupo e porque temia pelas represálias. Pois... Quem agride é sempre filho de alguém. Mas a vítima também. Também lida com as represálias, e com a humilhação (dupla neste caso porque apanhou de miúdas) e com o medo, e com o silêncio. Este pai, coitado, não imagino como me sentiria se passasse por uma situação semelhante, veio falar para a televisão antes de falar com a sua própria filha. Pelo menos foi o que disse. Que tinha de falar com ela e tentar perceber. Que raio de sociedade é esta? Parece que estamos num mega reality show em que o mais importante é sossegar o espectador. Primeiro uma declaração para as televisões, para que não pensem mal de nós. E só a seguir falar em sede própria, dentro de casa... Pois... Eu sou mãe e não sei o dia de amanhã. Eu fui adolescente num bairro complicado. Eu cresci com pais muito ausentes, porque trabalhavam por turnos. Passava muito tempo entregue aos cuidados de um irmão 3 anos mais velho. Cedo aprendi a defender-me, não chegar a casa a dizer que este ou aquele me tinham batido. Eu era dura porque tinha de o ser. Não era uma santa. Quem me batia levava, era a lei da sobrevivência. Mas cedo me ensinaram o que era certo e o que era errado. Sempre soube respeitar o outro, colocar-me no seu lugar. Nunca me passou pela cabeça levantar a voz aos meus pais, ou a um professor. Nunca me passou pela cabeça bater para me exibir. Bater enquanto manifestação de uma crueldade doentia. E vi isso naquelas miúdas. E assusta-me porque, apesar de ter vivido numa bairro complicado e de ter frequentado escolas difíceis, nunca embarquei em perseguições. Enquanto tentarmos justificar, enquanto tivermos medo de rejeitar e castigar estes comportamentos isto só pode piorar. E isso é perigoso.

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2 comentários

De MCK a 15.05.2015 às 01:42

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De *Márcia S.* a 15.05.2015 às 02:01

Concordo. O mal é ainda acharem que se trata de crianças. Com aquelas idades e a fazer o que fizeram, crianças não são... penso eu.

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